sexta-feira, 23 de abril de 2010

O MENSAGEIRO DE ARARAT - Teaser


1

“Ultrapassam em barbarismo tudo o quanto se pode imaginar (...). Ignoram o uso da charrua, das habitações sedentárias (...). Sua vestimenta consiste numa túnica de linho e numa casaca de peles de rato cosidas; um capacete ou um barrete lançado para trás e peles de bode enroladas nas pernas peludas completam seu equipamento. Seu calçado, cortado sem forma nem medida, não lhes permite marchar. Por isso são incapazes de combater como infantes. Uma vez na sela, porém, parecem estar pregados no dorso de seus cavalinhos feios, mas infatigáveis e rápidos como raio. Nada iguala sua destreza no disparo, a distâncias prodigiosas, das flechas dotadas de ossos pontiagudos como o ferro. Têm os rostos deformados por cicatrizes, dorsos curvos. Parecem animais sobre suas patas.”

Amiano Marcelino (~330 – ~395)

Dácia. 453 AD.

A capital dos hunos não era uma cidade, mas um vasto campo situado entre o rio Danúbio, o rio Teiss e os Cárpatos. A cidade de Naissus, completamente destruída, marcava a fronteira entre o domínio huno e o domínio romano. Aquela fora a única exigência do Khan, quando assinou a paz com seus inimigos no ano anterior: a posse das terras ao sul do Danúbio, um território cujas delimitações eram de cinco dias de marcha.
            Próximo às barracas dos guerreiros, junto às termas levantadas com rochas trazidas das planícies da Hungria, erguia-se o palácio circundado por uma paliçada de tábuas polidas. Anoitecia. Não havia soldados por perto e o menino procurava quase em vão por uma brecha entre as cercas fincadas na terra. Uma vez lá dentro, encontraria seu caminho até a presença do monarca.  Tudo de que precisava era conseguir alguns minutos diante dele. Só isso. A fome, a sede e o cansaço não eram suficientes para fazê-lo parar. Há três dias caminhava sem trégua. Estava exausto. Faminto. Mas não podia desistir.  
            Percebendo uma pequena fenda entre duas cercas, o fedelho deixou o corpo escorregar e rastejou como um ladrão para dentro da fortaleza. Teve ainda chance de lançar um breve olhar para o homem pardo e baixo, de corpo truculento, olhos fundos e estreitos, trajando apenas um manto de linho bege sob peles de urso. Então a fisgada na coxa esquerda... Dentes! Rasgaram a pele fina quase até lhe atingirem os ossos, e a dor e o susto foram tamanhos que ele sequer gritou. Engoliu o ar num soluço e, no instante seguinte, escuridão...

            Não sabia dizer por quanto tempo dormiu. A perna latejava. Uma dor lancinante que ele fazia força para esconder. Seu ferimento fora cuidadosamente tratado, e seu corpo estava estendido sobre uma esteira. As almofadas às suas costas proviam-lhe de um conforto que ele jamais conhecera. Havia um cheiro adocicado no aposento. Um aroma que, de uma forma que ele desconhecia, lhe trazia conforto. Os olhos pesavam como rochas. Ergueu as pálpebras com profundo esforço. A visão, ainda turva, revelou o rosto austero daquele mesmo homem que o abordou do lado de fora do palácio. O menino suspirou. O medo de repente sobrepujou a dor causada pelo ferimento. “Agora, sim. Estou morto.”, ele pensou consigo ao ouvir a voz daquele a quem, como lhe dissera a mãe já morta, devia chamar de pai.
– Quem és?
O menino franziu o cenho. Morreria com dignidade.
– Teu filho. – respondeu, devolvendo ao homem o mesmo ríspido olhar que este lhe dirigia.
– Tenho filhos por todo mundo. Tenho mais filhos do que homens em meus exércitos. Todos bastardos.
– Mas ainda filhos.
A resposta do menino causou alguma estranheza naquele homem. Por certo já havia reconhecido naquela criança seus próprios olhos, seus traços, mas, de repente, reconhecera também, nela, suas palavras, sua própria arrogância. Sorriu.
– O que queres aqui?
– Venho a pedido de minha mãe. Ela me disse que te procurasse se ela faltasse para mim. Tenho nove anos e mais ninguém nessa vida. Meu irmão e minha mãe estão mortos. Não venho por teu amor, tuas riquezas ou teu abrigo. Quero um trabalho.
O guerreiro ensaiou um sorriso e olhou para o lado, na direção de seu guardião. Os olhos do menino de repente foram tomados de pânico ao ver a aproximação daquele que, certamente, era o responsável pelo ferimento cuja cicatriz carregaria pelo resto da vida. Um lobo. Branco. Enorme. Maior do que qualquer lobo que ele jamais houvera visto...
– Karr poupou tua cabeça porque sentiu em tuas veias o gosto de meu sangue, fedelho!
O menino engoliu em seco. O lobo o estudava. Erguia o focinho mostrando as presas como que se estivesse faminto. Uma enorme jóia pendia em seu pescoço. Uma jóia semelhante pendia também no pescoço de seu pai. Havia um estranho símbolo talhado em ambas. O lobo percebeu o olhar curioso do garoto sobre seu medalhão e se adiantou mais um passo de maneira ameaçadora. De repente, o menino sentiu que ia sufocar...
– Tu és o senhor do mundo! – disse, tentando controlar o impulso trêmulo em sua voz. – E governar o mundo exige trabalho. Deve haver algum trabalho em teu mundo para mim, meu pai. – os olhos altivos do lobo não o deixavam. Era inquietante. O homem suspirou enquanto o animal voltou as presas na direção de seu mestre e rosnou.
– Karr está me dizendo que há três dias vens nos espreitando...
O menino o olhou de lado, incrédulo.
– Podes ouvir a voz do lobo? – perguntou de súbito.
O guerreiro curvou seu corpo sobre o menino, aproximando os lábios de seu rosto. – Posso ouvir a voz de todas as feras... – sussurrou-lhe ao ouvido.
– Ensina-me! – gritou o garoto de sobressalto.
O lobo ergueu o focinho mais uma vez, deixando agora escapar um longo e sonoro rosnado.
– Por que ele ri das minhas palavras? – perguntou o menino.
O guerreiro lançou um rápido olhar para seu guardião e voltou a fitar o garoto.
– Então sabes que Karr estava a rir de ti? – indagou, se divertindo com a presunção do menino. – Já não tens mais nada a aprender comigo, fedelho!
Outra fisgada. Dessa vez o garoto não conseguiu esconder o espasmo de dor.
– Não sei se admiro tua coragem ou se repudio tua estupidez... – a voz do monarca de repente lhe soou terna, quase paternal.
– Só quero um trabalho. – voltou a repetir. – Dá-me um trabalho e nunca mais hei de te molestar, meu pai.
– E que tipo de trabalho tu procuras?
O menino ergueu os olhos.
– O tipo que faz de bastardos como eu, homens como tu, meu pai. – disse com firmeza e solenidade. O guerreiro fitou o garoto nos olhos profundamente, apertando entre os dedos o medalhão.
– Vou deixar recuperar-te de teus ferimentos sob meu abrigo. Até lá vou pensar sobre o que tu podes fazer para mim.
– Sim, meu pai.
Então caminhou até porta do aposento e voltou-se uma última vez na direção do rebento.
– Como é teu nome? – perguntou.
– Anatole.
– Não me chames de pai outra vez, Anatole, porque não reconheço filhos que não sejam legítimos. – disse-lhe numa calma tão inquietante que chegou a lhe causar medo.
– E como devo chamar-te, meu senhor?
– Por meu nome.
O menino baixou a cabeça, encabulado.
– Sim. Átila.

2

Levou quase um mês para que Anatole se recuperasse por completo daquele ferimento. Não poderia ser diferente, dado que o menino insistia em correr para cima e para baixo, por todo acampamento, negligenciando todas as recomendações feitas pelos médicos. Os pontos estouravam a cada três dias, que lhe custavam mais dois de repouso absoluto, para novamente o menino voltar a tripudiar. Desde a noite do encontro com seu pai, Anatole jamais vira o monarca novamente. Fora colocado numa tenda do outro lado do acampamento, próxima ao campo de treinamento dos arqueiros. Quando não estava repousando em vista do ferimento aberto, ocupava-se dos animais e da observação do treinamento dos soldados. Aqueles homens pareciam ter nascido sobre o cavalo. Eram um com eles. Montavam de maneira incomum. Os pés cravados no estribo e os braços ocupados tão somente do arco e flechas. Os animais também eram diferentes. Menores e mais troncudos do que aqueles que ele estava acostumado a ver. “São mais velozes e resistentes do que a montaria romana.”, explicou-lhe um jovem arqueiro.
– Mas tens dos outros cavalos também.
– Uns poucos dos quais não gostamos... Outros, que não gostam de nós... – o arqueiro apontou para o pasto além do acampamento. – Vês aquele ali?
Anatole olhou na direção mostrada pelo arqueiro e sorriu. O animal era negro como a meia-noite, a crina longa, os pêlos brilhantes... Jamais vira um cavalo tão belo. – Veio de muito longe. – disse-lhe o jovem arqueiro. – Mas não serve para nada, o maldito. Não gosta de trabalhar e ninguém consegue montá-lo...
Os olhos de Anatole se encheram de desejo.
– E por que tu o manténs aqui? Por que não o deixas ir, ou vais sem ele? – perguntou.
– Foi um presente. Um presente que teu pai ganhou ainda criança.
– E o bicho não envelheceu?! – perguntou o garoto espantado.
– Por isso o nome dele...

Anatole sorriu sua curiosidade de tal maneira que o arqueiro não hesitou em responder-lhe...
“Século!”, o garoto repetia incessantemente em pensamento. “Mas que belo nome para um cavalo! Século!” Passava agora dias e noites pensando sobre o animal. Vez por outra arriscava uma aproximação. Cestos e cestos de cenouras frescas conseguidas por seu novo amigo, o arqueiro. Horas e horas a lhe escovar a crina e os pêlos, em pé sobre a banqueta dado que mal podia alcançar a barriga do animal, que dirá seu dorso! Estava tão ocupado em cortejar o bicho que sequer percebia os olhos sempre presentes de Karr a lhe observar os passos de longe.

Detalhe por detalhe, o lobo reportava tudo a seu mestre, cujo interesse crescente pelo menino começava a levantar suspeita por parte de seus conselheiros...
– Um bastardo?
“Mas ainda filho!”.
A frase veio à ponta da língua, mas o monarca não precisava dizê-la. Bastou-lhe apenas lembrá-la. Repeti-la para si em pensamento.
– Queres ter a cabeça decepada? Desde quando te dei permissão para falares desta maneira comigo?
Essa era sempre a resposta sábia. Nenhuma outra.
– Perdão, meu senhor. É que os presságios...
– Os presságios... Ah, os presságios! Tu e os malditos presságios! Disseste não há muito que os ventos trariam más notícias e sabes o que me trouxeram os ventos? Este menino! Cansei-me de teus presságios! Aliás, cansei-me de tua arrogância! Vou mandar que te cortem a cabeça e vou pedir que me sirvam de tuas vísceras porque, talvez delas, ao comer, eu possa herdar teus dons videntes e finalmente entender como a tua escassa inteligência conseguiu por tanto tempo atormentar meu gênio!
O homem caiu de joelhos.
– Corta minha língua, então, senhor do mundo, mas deixa minha cabeça onde está!
– Vai! Vai-te daqui!
O homem saiu com passos tão apressados e tropeços, que arrancaram do monarca um sorriso doentio e cruel. Karr se aproximou dele e roçou a cabeça em sua perna.
– Tu crês que devo enviar o menino a eles, não é, meu guardião? – perguntou ao lobo.
“Eles ainda aguardam um herdeiro teu...”, escutou em sua mente a voz solene de Karr... “Um herdeiro digno de teu nome.”
O monarca sorriu para si mesmo.
– Anatole... “O Nascer do Sol”... Uma grata coincidência o nome dele, não achas? – perguntou, voltando o rosto para a noite lá fora.
O guardião elevou seus olhos ao monarca e mostrou as presas como que sorrisse... “Coincidências não existem, meu Khan. Tempo dotado de vontade.” – disse-lhe em pensamento. – “Tempo dotado de vontade.”

3

– Tenho um trabalho para ti, bastardo!
O menino, que ainda dormia, acordou de sobressalto, levantou-se numa fração de tempo para, em seguida, colocar-se de joelhos diante do monarca e seu guardião. Tentava esconder o medo que ainda sentia daquela fera e se perguntava se esta podia ouvir às sonoras ribombadas de seu coração apavorado.
– Sim, senhor.
– Tua perna?
– Curada, meu senhor.
– Podes montar? – perguntou, percebendo que os curativos feitos por seus médicos estavam em precária situação e que o menino fazia algum esforço para manter o equilíbrio. Mesmo assim, não disse coisa alguma a respeito.
– Sim, meu senhor.
O monarca bateu as palmas das mãos à frente, olhou brevemente para Karr e sorriu.
– Excelente. Tu partes em vinte dias. – e deu as costas ao menino, caminhando para fora da tenda. Anatole ergueu-se confuso e apressou os passos tentando alcançar seu pai.
– Senhor? – gritou à distância. – Senhor! Não me disseste do que o trabalho se trata!
O monarca cessou os passos e voltou-se para o menino.
– É verdade! Mas que grande falta a minha, Karr! – completou. – Devemos dizer a Anatole sobre a natureza de seu trabalho ou tu achas mais interessante fazê-lo esperar vinte dias?
Karr acenou com a cabeça e arregalou as presas na direção de Anatole.
– Hmm... Meu guardião acha que devo dizer-te agora. Mas eu acho que tu deves esperar vinte dias... E acho que deves esperá-los dentro de tua tenda. Deitado em tua esteira.
Anatole sentiu uma vontade louca de perguntar por que, mas decidiu conter-se. Questionar a decisão de seu pai seria como questionar sua vontade de continuar vivo! Já tinha ido longe demais com sua curiosidade e ousadia ao persegui-lo pelo acampamento daquela maneira. Não disse nada. Ajoelhou-se. O movimento fez com que, mais uma vez, seus pontos já quase soltos, estourassem. O ferimento começou a sangrar e doer. Anatole não esboçou qualquer reação, tampouco o monarca.
– Agora, volta para tua tenda, deita-te e não te levanta por vinte dias, Anatole, quando então voltarei para dizer-te sobre teu trabalho. – ordenou-lhe o pai.
O menino se ergueu, curvou-se em reverência, deu três passos desengonçados para trás e só então se virou para caminhar de volta à tenda. Mancava. A dor na coxa latejava em sua cabeça. Deitou-se sobre a esteira e não conseguiu deter as lágrimas. “Karr, seu maldito!”, pensava consigo. Pouco após, seu amigo arqueiro entrou trazendo um pote com água e ervas, uma agulha e fios de crina de cavalo. Anatole já sabia para quê... Suspirou profundamente e agradeceu em silêncio pela ordem dada por seu pai, compreendendo finalmente o motivo pelo qual fora colocado naquele castigo. Certamente, se permanecesse quieto por vinte dias, aquela ferida haveria de não mais sangrar.


4

Noite. O monarca sussurrou alguma coisa na orelha de Século e sorriu para Anatole. Então, se voltou para Karr.
– Acompanha-os até a fronteira. Já me certifiquei de que a partir daquele ponto eles tenham nova escolta. – ordenou.
O lobo chacoalhou a cabeça negativamente.
“Não posso deixá-lo, meu senhor.”
– Faz o que mando, Karr.
“Não vou deixá-lo, meu senhor.”
– Não tens escolha, Guardião. Faz o que mando! Além do mais, é minha noite de núpcias! Achas mesmo que te quero por perto?
“Não gosto do cheiro de tua nova esposa, meu senhor.”
– Não terás de dormir com ela, Karr. Agora, faz o que mando!
O lobo rosnou, rosnou e rosnou. Abria a bocarra expondo as presas e salivando como se estivesse faminto. Os pêlos de seu dorso estavam tão eriçados quanto as costas de um porco espinho. Andava de um lado para o outro, agitado, transtornado, furioso. O pequeno Anatole o olhava apavorado. Sequer entendia sobre o que falavam. Esperara os vinte dias, como o pai ordenou. Curou sua ferida. E fora finalmente convocado, acreditava, para tomar conhecimento da natureza de seu trabalho. No entanto, até o momento, nada de trabalho. Apenas as lamúrias de uma fera que parecia querer devorá-lo.
– São cinco dias de caminhada até as fronteiras. – disse o Khan. – Dois a cavalo. Um, em se tratando de Século. Tu estarás de volta em um dia e meio, Karr. Não há com o que te preocupares.
“Não posso.”
O monarca não lhe deu atenção.
– Anatole! – chamou pelo menino. – Monta! – exclamou, apontando para Século. O menino abriu um largo sorriso. Subiu na anca do animal com a destreza de um verdadeiro huno. O monarca se aproximou do menino e tirou do pescoço o medalhão que carregava consigo. Ofereceu-o ao garoto. “O que estás fazendo?!”, perguntou Karr de maneira exasperada. “Enlouqueceste?!”
– Século está levando uma mensagem minha até Avarayr, Anatole, na Armênia. – disse ao menino, sem se importar com os acessos do lobo atrás dele. E ao seu lado. E à sua frente...
– E queres que eu me certifique de que a mensagem será entregue! – respondeu Anatole entusiasmado. 
– Tu és a mensagem, Anatole. – respondeu Átila, sorrindo e estendendo ao menino seu medalhão. – Toma. Usa isso. Não o tires do pescoço em hipótese alguma. É para tua proteção. – e se voltou para Karr. – Vai com eles. Até a fronteira. E volta logo.
“Senhor... Teu medalhão. És um Mista, não um Patrono! Tua eternidade depende dessa jóia! Sem ela estás...”
– ...Vulnerável? Ora, Karr, a espada de Marte está comigo! – exclamou, zombando de si mesmo. –  Te esqueces de quem sou? Senhor de Arqueiros e Filho do Céu! A estrela cai, a terra treme... Eu sou o martelo do mundo! E a erva não cresce mais...
“...por onde o teu cavalo houver passado... Sim, meu Khan, como quiseres. Como quiseres.”, concluiu vencido, o guardião.
Partiram. No céu, as estrelas cintilavam. O monarca olhou para o alto, fechou os olhos e inflou os pulmões como há muito tempo não se deixava fazer. Queria sentir o cheiro da noite e das coisas da noite. Ao voltar seus olhos para a terra, todos se haviam ido. Já não havia mais qualquer sinal deles. “O tipo de trabalho que faz de bastardos como eu, homens como tu.”, lembrou-se das palavras do fedelho. Sorriu. Os Patronos acolheriam Anatole e o educariam para ser um deles. Cumprira sua parte para com a Ordem. Voltou-se na direção do palácio e franziu o cenho. “Hora de cuidar da nova esposa.”, pensou. “Ildico... Hoje sou mais teu do que jamais fui de mim mesmo...”

5

O Guardião do Mito abria seu próprio caminho. Atrás dele o andaluz, embora veloz, fazia esforço para lhe acompanhar a marcha. Cortavam a noite como se fossem o vento. O menino se agarrava à crina do animal com tamanha força que suas mãos sangravam. Sua pressa não era a pressa de Karr, cuja mente não conseguia deixar de pensar na inconseqüência dos atos de seu mestre. Primeiro pede a ele que escolte o menino até a fronteira. Depois, entrega ao menino seu medalhão. “Irresponsável!”, dizia o guardião em silêncio. “Irresponsável!”.
A mata, densa e fechada, se erguia como um muro entre eles e a urgência da viagem. Para o Guardião do Mito, não era tão importante chegar ao destino quanto o era retornar ao ponto de onde partira. Corria. Como o mensageiro que traz más notícias. Como um presságio de mau agouro. Às cegas. A lua sumira entre as nuvens...
Anatole rezava em silêncio. Queria pedir ao lobo que diminuísse a marcha. Estava assustado. Na verdade, apavorado. Suas mãos queriam ceder. Doíam demais. O ferimento de sua perna latejava. Não agüentaria por muito mais tempo. Sentiu as lágrimas encherem seus pequenos olhos. E, antes que percebesse, estava chorando. Fungava em silêncio. Pedia para seu irmão que lhe protegesse. Que, de onde estivesse, não permitisse que o som de seu pranto chegasse aos ouvidos daquela fera ensandecida. E, de repente, como que se lhe houvessem escutado às preces, Século começou a diminuir a velocidade...
Gradativamente...
Diminuindo...
Diminuindo...
Até parar.
Anatole olhou em volta procurando pelo guardião.
– Karr! Karr!
Silêncio.
Século ofegava. Bufava. Expelia o ar de seus pulmões entre urros. Sacudia a enorme cabeça para cima e para baixo, batendo os cascos contra o solo de maneira inquieta. 
– Karr!
Nada. Teria sido abandonado? Teria, o guardião, desobedecido seu mestre e o deixado ali? No meio da noite? Sozinho? Olhou para as mãos. Sangravam. Tentou rasgar um pedaço de sua túnica, no intuito de enrolar o ferimento e estancar o sangue, mas não conseguiu. Suas mãos não estavam firmes o suficiente, fortes o suficiente. Sequer atendiam aos seus comandos!
KRAKKK.
Olhou de súbito para trás. Nada.
SHHHHH........ Ouviu atrás de sua orelha.
“Karr...”, repetiu em silêncio, “Por favor...”
Apertou o medalhão entre os dedos. O sangue escorria de sua mão. Pingava fresco no solo.
HAHHHHHHH......
Um sussurro. O corpo do menino se arrepiou. Sua nuca estava gelada.
Tem o sabor dos fortes, este aqui...
A voz era grave, distorcida e desconexa. Não era a voz de um homem ou de uma fera. Um som assustador que se fazia entender por proferir outros sons que, juntos, continham sentido, mas não natureza... “Karr...”, repetia em pensamento, “Onde estás... Por favor...”
A seiva dos poderosos...
Outra voz. Tão inumana quanto a primeira.
É tão só e tão pequeno...
E mais outra...
– KKKK... E viaja sozinho...
E mais outra...
O choro. Precisava engolir o choro.
Século começou a relinchar, arfar e trotar em torno de si mesmo.
Sacudia a cabeça e dava coices no ar.
“Usa isso. Não o tires do pescoço em hipótese alguma. É para tua proteção.”, lembrou-se. Ergueu o medalhão para o nada.
KKKKK... Carrega o símbolo da Ordem... KKKK.... Seiva poderosa!
Aquieta! Onde viaja um membro da Ordem, viaja um Guardião do Mit...

SLAAASHHHH.

Uma cabeça passou voando pelos olhos apavorados de Anatole, bateu secamente contra o chão e rolou até o pé de uma árvore. O garoto soluçou de susto e o espasmo o levou a perder o equilíbrio. Tombou de lado no chão. A queda abriu um corte em sua testa. Ele ainda fez menção de tocar o ferimento ao mesmo tempo em que jogou seu corpo para o lado tentando rolar, mas antes que pudesse mover qualquer músculo, o guardião já estava sobre ele, bocarra aberta, salivando em seu rosto... “Não te mexas. Ainda há mais quatro deles aqui...”, ouviu em sua mente a voz austera do lobo. O menino acenou positivamente sem dizer qualquer coisa. O guardião se colocou à frente de Anatole. Diante deles, quatro figuras meio humanas meio lobos, avançavam contra ambos.
– O q... q... que... é... iss... isso...?!
Anatole não acreditava nos seus olhos.
“Proscritos.”, respondeu o guardião.
KKKK... Um a menos para dividir a carne... KKK... Agradecemos tua oferta, Guardião do Mito... – disse a fera, apontando em direção ao corpo sem cabeça jogado na relva para, em seguida, avançar contra o lobo e o menino.

O guardião ergueu-se sobre as patas traseiras e lançou-se sobre aquelas aberrações com a mesma violência com que estas se lançaram contra ele. A velocidade de seu ataque fora tamanha que Anatole jamais teve chance de entender o que houve. A bocarra separou do pescoço a cabeça de um deles e, usando o corpo do monstro decapitado como arrimo, o guardião se lançou sobre o segundo. Enterrou a pata em seu peito, atravessando-o, e puxou de volta, consigo, suas vísceras. Em seguida, girou por sobre as próprias costas e, num golpe certeiro e violento de suas garras, separou de uma só vez cabeça e pescoço daquele monstro. O terceiro tentou fugir, mas, antes que pudesse avançar, o guardião abocanhou sua perna, arrancando-a num só golpe. A fera tombou sob Século e este tratou de lhe esmagar a cabeça sob o casco.

O lobo olhou em volta e inspirou o ar da noite por um instante. Sua pelagem branca estava coberta de sangue. Em sua bocarra, preso em seus dentes enormes, pedaços e mais pedaços de carne e vísceras e músculos e pele... Voltou-se num rápido movimento para a direção de Anatole e então alçou vôo por sobre o menino. Anatole fechou os olhos, se encolheu e ouviu atrás de si ao baque surdo, um grunhido desesperado e então mais nada. Abriu os olhos. Voltou-se para trás. O lobo terminava de desmembrar a fera e se refestelava nos restos de carne e sangue espalhados por todo lugar. O menino se curvou sobre o próprio ventre e levou a mão à boca. Não conseguiu segurar... Vomitou. E ouviu atrás de si o uivo. Longo e apaixonado.

Ergueu os olhos entre espasmos na direção do guardião.
– Obrigado... – soluçou as palavras.
O lobo não respondeu. Caminhou até Século, se ergueu sobre as patas traseiras alcançando uma manta. Tomando o pano de lã entre os dentes, levou-o até o menino.
– Eu achei que me havias deixado... Que me havias abandonado.
O lobo voltou mais uma vez até Século sem dizer nada. Rasgou de sob a sela do cavalo um pedaço de uma delicada peça de linho que descansava entre o manto de lã e a sela, e o prendeu entre os dentes. Rasgou-o então em duas tiras e as levou até o menino.
“Para tuas mãos.”, Anatole ouviu em sua mente. “Não é saudável sangrar neste lugar. Podes atrair outros como esses aqui...”. A voz do lobo. Só então se deu conta de que nunca havia escutado a voz de Karr! “Podes montar?”
– Acho que sim...
O guardião se aproximou do menino. De repente passou o focinho por todo corpo do garoto, cheirando-o, fungando em todas as suas partes.
– O que estás fazendo?! – perguntou Anatole, impacientemente.
“Procurando ferimentos.”
– Não estou ferido!
“Tua testa está sangrando, menino!”
– Anatole! Meu nome é Anatole! E minha testa não estaria sangrando se tu não houvesses demorado tanto a aparecer!
O lobo encarou o garoto. Presas à vista. Hálito podre.
“Foi teu despreparo que te derrubou daquele cavalo. Não eu. Agora, dorme um pouco.”, disse, caminhando na direção de Século. “Não estás em condição de viajar.”
Anatole olhou em volta, para as carcaças espalhadas.
– E quanto a estas... coisas?
“Não te preocupes. Estou aqui. Nada irá te molestar o sono, Anatole.”
O lobo sentou-se diante do cavalo, de costas para o garoto.
Anatole se recolheu dentro da manta, abraçando o próprio corpo.
– Eu pensei que precisavas regressar até amanhã à noite, Karr. Não foi o que meu pai te ordenou fazer? Não foi por isso que marchávamos tão rápido?
O lobo olhou para trás, por cima das costas.
“Teu pai está morto, Anatole. Sinto muito.”
O menino pareceu não compreender...
– Morto? Como... Mas...
O lobo voltou-se para o menino.
“Foi morto pela esposa. Ildico. Esta noite.”
Anatole abraçou os joelhos e se deixou chorar. Chorava como a criança que era. Órfão. Estava órfão.
– Não... Por quê? Por quê, Karr? Por que não voltaste para protegê-lo? Por quê...
“Karr voltou, Anatole. Mas não a tempo.”
O menino ergueu os olhos...
“Karr voltou...”, repetiu em pensamento.
E se levantou.
“...voltou...”
Ajoelhou-se diante do lobo e estendeu a mão para tocá-lo.
“Voltou.”
– Quem és?... – perguntou incrédulo.
O lobo baixou a cabeça, como que lhe prestando honras.
“Azael.”, disse. “Meu nome é Azael.”



continua.................

5 comentários:

Elio disse...

É ate sacagem Marcela ! Rs
Estamos esperando essa obra faz tempo e você piora nossa angústia nos dando esse trecho do livro !!
Como tenho dito na comunidade por esses anos, continuaremos esperando ansiosos pelo Lançamento !
Abraços de um grande fã !
Élio Abrantes

Eudes disse...

Caraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaamba. Fiquei mega feliz! A história, pelo que pude perceber, deve está ainda mais cativante! Quando vi o nome "Azael" no fim do texto então... Quase piro de curiosidade.

Gabriel disse...

Assino em baixo tudo o que o Elio falou. Afinal de contas, eu li exatamente o mesmo volume que ele.

Henrique disse...

pooo marcela cade o Mensageiro de Ararat?

sera que o Azael pegou ele pelo caminho?

tem noticia do paradeiro dele não?

Abraços!

Anônimo disse...

cade a continuacao ? voce ainda esta viva ?

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