terça-feira, 16 de outubro de 2007

Para Vinícius


Escrevi o texto abaixo em 12 de junho de 2006, por ocasião do aniversário de um grande amigo. Gosto muito deste texto. Estava quase me esquecendo dele... Quis relembrá-lo. Tem a ver com o que ando trabalhando no momento.

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Há o tempo de nascer e o tempo de crescer. O tempo de semear e o tempo de colher. Mas há também o tempo que se perde entre estes dois. O tempo em que as mãos se estendem, mas não se tocam; o profundo abismo entre o antes e o depois, um limbo silencioso, e de silêncio; um vale nublado de perguntas e saudade – o tempo que o tempo se dá para que o tempo passe.

Eles caíram neste abismo. Ela e ele.
Perderam-se neste tempo.
E perderam-se um do outro.

Sem que percebessem, de repente estavam separados sem jamais haverem soltado as mãos. E seguiram na mesma direção, para frente, lado a lado, sem se notarem. Em muitos momentos podiam ouvir um ao outro, mas eram momentos em que falavam consigo mesmos, não entre ambos. Vez por outra, chamavam-se silenciosamente, como numa prece. Quase podiam se ouvir. Choravam, e então sorriam, certos de que, em algum momento, o tempo que se dava o tempo, haveria de se consumir. E tudo voltaria a ser como sempre foi.

Mas não foi o que aconteceu.
Passava o tempo; passavam os passos, e aquele desejado encontro jamais encontrava lugar... Finalmente, eles desistiram de acreditar. Desistiram de esperar. E se separaram de uma vez. Soltaram as mãos, cujas amarras daquele tempo mantinham atadas, e deram-se as costas definitivamente, começando, enfim, a caminhar em direções opostas, certos de que o passado ficaria no passado, convencidos de que o tempo que o tempo se havia dado era, tão somente, para sempre...

Mas para sempre é infinito...
E o infinito é perpétuo...
Um loop-perpétuo...

Devagar e desacreditados, eles começaram a caminhar, sem saber, sobre aquela forma imaginária. Caminharam exaustivamente, a passos curtos e largos, em seu próprio tempo, que, sem pressa, parecia afastá-los cada vez mais...

Até que foram surpreendidos por eles mesmos... Viram-se, de repente, frente-a-frente, naquele encontro não-marcado que pouco ou nada durou, mas que - finalmente - teve lugar...

E eles perceberam que se não mais caminhassem lado-a-lado, ao contrário, se se dessem as costas e seguissem as linhas daquele loop, haveriam de perpetuar aquele encontro, e promover novos encontros... Quanto mais caminhassem em direções opostas, mais haveriam de se encontrar, e cada encontro seria único porque seria breve... E eles haveriam que andar cada vez mais e mais rápido, porque quanto mais caminhassem, para frente, um contra o outro, mais e mais vezes o encontro haveria de se repetir...

Porque o loop é perpétuo...
E o que é perpétuo é infinito...
E o que é infinito dura para sempre.

2 comentários:

Ferigato disse...

Belo texto Marcela! Um grande abraço!!

Roger Cruz disse...

Você tem razão de gostar.
É uma idéia fundamental e recorrente a qual parecemos estar sempre sujeitos.
Você fez tudo soar muito positivo.
Beijo do Roger

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